Gerador de cardápio com IA: ChatGPT ou app de menus? O que mostram os estudos brasileiros

O ChatGPT monta um cardápio completo em segundos, e serve como ponto de partida. Em dois trabalhos brasileiros, ferro, cálcio e folato ficaram curtos e, no pedido de manter o peso, as calorias ficaram abaixo do necessário. Confira a conta antes de cozinhar e, com condição de saúde, procure um nutricionista.

Pela redação da MacroRecipe · Atualizado em

Pedir “um cardápio para a semana” ao ChatGPT leva dez segundos e a resposta parece completa: seis refeições por dia, gramas, até um total de calorias. A pergunta é se a conta fecha. Pesquisadores brasileiros fizeram esse teste e publicaram os resultados: um grupo da UFBA no Revista PET Brasil (UFTM, Uberaba, outubro de 2024) e três autores do UniFOA, de Volta Redonda, com planos de sete dias do ChatGPT e do Copilot (maio a agosto de 2025). Lemos os dois PDFs inteiros, refizemos as contas deles e as contas que eles não fizeram. Todos os números nutricionais desta página são estimados.

Um aviso antes de começar: não rodamos um chat novo. Um teste feito por nós não poderia ser conferido por você, e o ChatGPT mudou desde 2024. Estes são planos publicados e datados, e qualquer pessoa pode refazer a aritmética pelas tabelas abaixo. A página é escrita pela redação do MacroRecipe, que faz um aplicativo de menus semanais para iPhone; a comparação com o aplicativo vem no fim e está marcada como tal.

O que o ChatGPT acerta ao montar um cardápio

Muita coisa. Pedido um cardápio, ele devolve seis refeições (café da manhã, lanche da manhã, almoço, lanche da tarde, jantar e ceia) com alimentos comuns, e nos dois trabalhos brasileiros o resultado tinha estrutura de plano alimentar de verdade. No trabalho da UFBA, o ChatGPT chegou a mostrar a conta da taxa metabólica basal com a fórmula de Harris-Benedict e a lembrar, por conta própria, que o plano deveria ser acompanhado por um profissional de saúde.

  • Estrutura e variedade de grupos. Fibra ficou no alvo nos dois estudos: 25,2 g contra 25 g de referência no cardápio da UFBA e 100,2 % de adequação média no UniFOA (estimado pelos autores).
  • Proteína alta. O cardápio da UFBA chegou a 1,7 g de proteína por kg, contra 0,8 g/kg de referência; no UniFOA, a proteína do ChatGPT ficou em 17,2 % das calorias, acima da referência de 10 a 15 % (estimado).
  • Vitaminas C e B12 acima do recomendado nos sete dias do UniFOA (140 % e 126 % de adequação para o ChatGPT, estimado).
  • Em estudo internacional, o ChatGPT foi o que mais se aproximou da caloria pedida. Em 30 planos de um estudo da revista Nutrients, nenhum dos dez do ChatGPT 4.0 ficou 20 % ou mais longe do pedido, contra cinco de dez do Gemini (Kaya Kaçar, Kaçar e Avery, 2025).

Onde a conta não fechou

Dois padrões aparecem nos dois trabalhos brasileiros: carboidrato abaixo do que as referências pedem e ferro, cálcio e folato curtos. As calorias abaixo do necessário são só do UniFOA, que pediu para manter o peso; o cardápio da UFBA foi pedido hipocalórico. A gordura passou da faixa só no UniFOA, e na UFBA foi a proteína que ficou alta. A tabela junta os números dos dois, como estão nos PDFs.

Cardápios do ChatGPT analisados em dois trabalhos brasileiros (valores estimados pelos autores com Dietbox e Avanutri)
UFBA, Revista PET Brasil (2024)UniFOA (2025)
O que foi pedido1 dia, mulher de 22 anos, 70,8 kg, 1,61 m, atividade leve, cardápio hipocalórico7 dias, 6 refeições, mulher de 21 anos, 57 kg, 1,59 m, atividade leve, manter o peso
Energia média contada pelo software1.603 kcal por dia (o ChatGPT escreveu 1.465)1.629,7 kcal por dia (± 146,1)
Referência dos autores1.984 kcal (Mifflin-St Jeor)2.068 kcal (FAO/OMS 2004)
Adequação calórica (nossa conta)80,8 % (pedido: menos calorias; a referência é de manutenção)78,8 %
Carboidrato, % das calorias38,3 % (referência 45 a 65 %)35,3 % (referência 55 a 75 %)
Gordura, % das calorias32,4 % (20 a 35 %)32,0 % (15 a 30 %)
Ferro, adequação51 % (9,16 mg de 18 mg)14,8 mg de 18 mg (cerca de 82 %)
Cálcio, adequação55 % (545 mg de 1.000 mg)660,7 mg de 1.000 mg (cerca de 66 %)
Folato / ácido fólico56 % (224,6 mcg de 400 mcg)231,2 mcg de 400 mcg (cerca de 58 %)

No UniFOA, que pediu manutenção do peso, as calorias ficaram em 78,8 % do alvo, ou seja, abaixo do necessário. No cardápio da UFBA, pedido com menos calorias, os 80,8 % são em relação a uma referência de manutenção (1.984 kcal): o déficit foi o que se pediu, não um erro de conta. O que vale para os dois é o carboidrato em 35 a 38 % da energia (abaixo da faixa das referências usadas) e ferro, cálcio e folato abaixo do recomendado; na UFBA a proteína foi alta (1,7 g/kg) e a gordura ficou dentro da faixa (32,4 % contra 20 a 35 %), enquanto no UniFOA a gordura passou da faixa (32,0 % contra 15 a 30 %). Os autores da UFBA ainda notaram que faltou feijão: o plano não trazia nenhuma leguminosa, num país em que, segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares citada por eles, cerca de 60 % dos participantes incluíam feijão na alimentação. Também apontaram que o cardápio sugeria alimentos caros (amêndoa, quinoa, morango, salmão) sem alternativas mais acessíveis, e que uma pessoa com alergia, restrição religiosa ou remédio de uso contínuo não seria considerada.

O “68 %” que circula não é do ChatGPT

Quem procura o trabalho do UniFOA encontra a frase de que o ChatGPT teria atingido “68,2 % de adequação” e o Copilot “78,8 %”. O resumo e o texto dizem isso. Mas a Tabela 2 do mesmo trabalho diz outra coisa, e a conta é de uma linha só:

Adequação calórica no trabalho do UniFOA, recalculada com os valores da Tabela 2 (estimado)
ChatbotEnergia média (kcal/dia)Dividida pela referência de 2.068 kcalO que o texto do trabalho diz
ChatGPT1.629,778,8 %68,2 %
Copilot1.410,668,2 %78,8 %

Os dois percentuais estão trocados: 1.629,7 dividido por 2.068 dá 78,8 %, e é o ChatGPT; 68,2 % é a conta do Copilot. Os números absolutos (as médias em kcal) são consistentes com a tabela, então a conclusão do trabalho continua de pé: os dois chatbots ficaram abaixo da energia necessária. Só não é correto dizer que o ChatGPT chegou a 68 %. Não é crítica aos autores, que fazem um trabalho útil e aberto; serve para lembrar que até um texto acadêmico merece a conta de cabeça, e um chatbot também.

Recontando o que o ChatGPT escreveu para a UFBA

O cardápio da UFBA é curto e está impresso inteiro no trabalho, então dá para conferir. Das dezesseis linhas de alimentos, só duas trazem peso em gramas: 150 g de peito de frango grelhado no almoço e 150 g de salmão grelhado no jantar. As outras usam medidas caseiras (“1 fatia”, “1/2 xícara”, “1 punhado”), que a TACO não converte em gramas. Recontamos as duas que dá, com a TACO (4ª edição, valores por 100 g de parte comestível).

As duas linhas com peso em gramas do cardápio do ChatGPT, recontadas com a TACO 4ª edição (estimado)
Linha do cardápioLinha da TACOkcal por 100 gProteína por 100 g (g)kcal em 150 gProteína em 150 g (g)
150 g de peito de frango grelhado410, Frango, peito, sem pele, grelhado15932,0238,548,0
150 g de salmão grelhado (sem pele)317, Salmão, sem pele, fresco, grelhado24326,1364,539,2
150 g de salmão grelhado (com pele)315, Salmão, filé, com pele, fresco, grelhado22923,9343,535,9

O cardápio não diz se o salmão tem pele, então damos as duas leituras. Só essas duas linhas somam de 582 a 603 kcal e de 84 a 87 g de proteína (estimado), ou seja, de 36 % a 38 % das 1.603 kcal e cerca de 70 % dos 120 g de proteína que a análise da UFBA contou no dia (1,7 g/kg × 70,8 kg). Em outras palavras, o almoço e o jantar com carne ou peixe carregam a maior parte da proteína do dia. A TACO também não traz quinoa, outro item do almoço, o que mostra o limite de qualquer conta: parte dos alimentos que o ChatGPT sugere nem tem linha na tabela brasileira, e a comparação passa a depender de outra base.

Há ainda uma divergência dentro do próprio trabalho: o valor energético total que o ChatGPT calculou (1.465 kcal), na própria conta de taxa metabólica basal com o déficit sugerido, divergiu do contado pelo software Dietbox (1.603 kcal) para as mesmas linhas. São 138 kcal de diferença, cerca de 9 % (estimado). Esse total é o alvo da conta do chatbot, não a soma dos alimentos listados, e por isso vale somar a coluna você mesmo.

Como usar o ChatGPT sem cair nisso

Nenhum dos três trabalhos diz que a ferramenta é inútil. A leitura honesta é que ela escreve bem, mas deixa de fora parte da conta. O pedido dos pesquisadores era curto e não pedia a soma dos alimentos; o seu pode pedir. Um modelo que você pode copiar e ajustar:

“Monte um cardápio de um dia para um adulto, com cerca de 1.800 kcal e pelo menos 100 g de proteína, com alimentos comuns de um supermercado brasileiro e feijão ou outra leguminosa. Mostre uma tabela com uma linha por alimento: o alimento, o peso em gramas e se o peso é cru, cozido ou seco, depois as kcal, a proteína, o carboidrato e a gordura. Some cada coluna a partir das linhas e mostre a soma. Não arredonde o total para o meu alvo: se faltar, diga quanto.”

Não testamos se isso deixa o ChatGPT mais preciso. O que ele faz é pôr cada número onde você pode ver, e as estimativas que o ChatGPT dá continuam sendo estimativas dele. Peça um dia por vez e confira antes de seguir: uma semana inteira são sete vezes mais linhas para checar.

  • Some a coluna de kcal no celular. Um total que bate exatamente com o seu alvo não prova nada: pode ser só o alvo repetido.
  • Procure na TACO as três linhas que mais pesam. Arroz, carne ou peixe e óleo carregam a maior parte das calorias. A tabela está aberta e traz cru e cozido do mesmo alimento; veja pesar cru ou cozido para a diferença que isso faz.
  • Pergunte se o peso é cru, cozido ou seco. Na TACO, 100 g de arroz tipo 1 são 358 kcal cru e 128 kcal cozido (estimado). Se o ChatGPT não disser, cada 100 g de arroz pode errar a conta em 230 kcal.
  • Confira feijão, cálcio e ferro. Foram justamente os itens em falta nos dois estudos. Na TACO, 100 g de feijão carioca cozido têm 76 kcal e 4,8 g de proteína (estimado).
  • Proteína em gramas, a partir dos alimentos. Veja quanto você precisa em quanta proteína por dia e compare com a coluna somada, não com a porcentagem prometida.

Quando procurar um profissional em vez de um chatbot

Um cardápio de chatbot é informação geral, não orientação médica. Se você tem diabetes, doença renal, alergia alimentar, está grávida ou amamentando, tem menos de 18 anos, tem ou já teve um transtorno alimentar, ou toma remédio que afeta o apetite ou a glicose, inclusive os de classe GLP-1, converse com um médico ou nutricionista antes de seguir qualquer cardápio, venha ele de um chatbot ou de um aplicativo. Os autores do UniFOA chegam à mesma conclusão:

recomenda-se que esses sistemas sejam utilizados apenas como apoio e não como substitutos da prescrição dietética, destacando a importância da atuação do nutricionista

ChatGPT ou aplicativo de menus?

Esta parte é escrita pela equipe do MacroRecipe, então leia com isso em mente. O ChatGPT é uma boa escolha para ter ideias rápidas: um dia com o que há na geladeira, um prato que você nunca fez, uma troca vegetariana. Não custa nada tentar e ele responde em português corrente. Nos trabalhos que lemos, o ponto fraco foi o que faltou ao redor da conta (energia, ferro, cálcio, feijão) e, na UFBA, o total.

Um aplicativo faz mais sentido quando você quer a soma pronta, semana após semana. O MacroRecipe monta a sua semana de menus de acordo com as suas macros e o objetivo que você escolher, com a lista de compras. Ele parte dos pratos que você seleciona, com dados de ingredientes do USDA e da Ciqual (ANSES), não da TACO, então os números do aplicativo podem diferir dos desta página. Ele ajusta as porções para aproximar cada dia das suas calorias e da sua proteína estimadas e, quando um dia fica abaixo delas, o aplicativo mostra isso em vez de escrever o alvo como total.

Para quem não serve: o MacroRecipe funciona só no iPhone, não no Android. Não tem leitor de código de barras, não tem uma base de alimentos para pesquisar e não é um diário alimentar completo, embora o escaneamento por foto de uma refeição feita fora de casa venha com a assinatura. A pré-visualização do seu primeiro menu é gratuita; depois vem uma assinatura paga.

Se você quer entender a conta antes de escolher a ferramenta, comece por como calcular macros e pelo guia de cardápio semanal em 30 minutos, que usa a TACO. Se prefere registrar o que come, veja a nossa alternativa ao MacroFactor.

Perguntas frequentes

O ChatGPT consegue montar um cardápio certo para mim?

Consegue montar um cardápio, mas a conta precisa de conferência. No UniFOA, que pediu manutenção do peso, o ChatGPT ficou em cerca de 79 % da energia de referência; nos dois trabalhos brasileiros, ferro, cálcio e folato ficaram abaixo do recomendado (estimado pelos autores). Não é orientação médica: com condição de saúde, procure um nutricionista.

O ChatGPT erra a conta de calorias?

Pode errar no total. No trabalho da UFBA, o ChatGPT calculou 1.465 kcal como valor energético total, e o software contou 1.603 kcal para o mesmo cardápio, cerca de 9 % a mais (estimado). Esse total não é uma soma dos alimentos, então some você mesmo a coluna de calorias no celular antes de cozinhar.

Qual é o melhor pedido para o ChatGPT montar um cardápio?

Peça a conta, não só o resultado: uma linha por alimento com peso em gramas, dizendo se é cru, cozido ou seco, depois kcal, proteína, carboidrato e gordura, com cada coluna somada a partir das linhas. Peça para não arredondar o total para o seu alvo e confira a coluna de calorias no celular antes de cozinhar.

O ChatGPT consegue montar o cardápio da semana e a lista de compras?

Consegue escrever vários dias e uma lista a partir deles. Quanto mais longo o plano, mais linhas para checar. Peça um dia por vez, confira cada um no celular e só depois peça a lista de compras, a partir dos dias já corrigidos.

É seguro seguir um cardápio do ChatGPT?

Um cardápio de chatbot é informação geral, não orientação médica. Os autores dos estudos brasileiros recomendam usá-lo como apoio, nunca no lugar do nutricionista. Se você tem diabetes, doença renal, alergia, está grávida ou amamentando, tem menos de 18 anos ou já teve transtorno alimentar, consulte um profissional antes.

Os números de calorias do ChatGPT batem com a TACO?

Nem sempre. A TACO é a tabela brasileira de composição de alimentos e não traz todos os itens que o ChatGPT sugere, como a quinoa. Quando o alimento existe nas duas bases, os valores podem diferir por causa do estado (cru ou cozido) e da origem dos dados. Trate todas as calorias como estimadas.

Um aplicativo de menus é melhor que o ChatGPT?

Depende do que você quer. O ChatGPT é rápido para ideias e não custa nada tentar; um aplicativo de menus soma as quantidades por você e mantém a lista de compras. O MacroRecipe funciona só no iPhone, com pré-visualização gratuita do primeiro menu e depois assinatura paga.

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Fontes

  1. Coelho PK, Santos AMS, Santos ACN, Machado VC. Inteligência artificial e nutrição: composição nutricional de um cardápio hipocalórico gerado por ChatGPT. Revista PET Brasil (UFTM) 2024;3(1):50-62, consultado em
  2. Silva MAM, França VN, Friens AV. Avaliação nutricional de cardápios elaborados por inteligências artificial, UniFOA, Volta Redonda (2025), consultado em
  3. Kaya Kaçar H, Kaçar ÖF, Avery A. Nutrients 2025;17(2):206, published January 7, 2025 (PubMed Central, em inglês), consultado em
  4. TACO, Tabela Brasileira de Composição de Alimentos, 4ª edição ampliada e revisada (NEPA-Unicamp), consultado em
  5. MacroRecipe na App Store, consultado em

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